segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Amor é fogo que arde sem se ver :)




Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões

Há um foco de incêndio invisível na Hyper Books do Porto!
O incêndio foi atado, ao bocado, por volta das 16h, pelo Cupido na zona de romance em língua portuguesa. Um colega meu, que não vou revelar o nome por questões de privacidade, estava a arrumar os livros no sítio certo com ajuda da Daniela porque as pessoas têm a mania de pegar nos livros, lerem ou fotografarem o livro às escondidinhas e depois deixar o livro num sítio qualquer para que não seja descoberto o seu comportamento menos correto. Estas pessoas esquecem que a loja tem um muito bom sistema de vídeo vigilância.
Voltando ao amor, ai, o meu tal colega e a Daniela estavam arrumar os livros de costas viradas de um para o outro e de repente, ainda estou para descobrir, caiu de uma estante superior 13 exemplares do “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco em cima das suas cabeças. O meu tal colega J… socorreu imediatamente a Daniela porque ficou inconsciente durante algum tempo. Atualmente, a Daniela está a ser assistida no Hospital São João para ver se a sua cabeça não ficou afetada. Curiosamente é o mesmo onde me encontro. Mas atenção que a minha presença e da Daniela é pura coincidência! Eu vim ao hospital a uma consulta oftalmológica porque ando a ver mal. Ai o amor!
Mas a Daniela não sabe que o meu tal colega gosta dela porque ele é tímido. Alguém quer dar conselhos como ele pode conquistar a Daniela!? Eu não dou conselhos porque não sou perito neste assunto.
Em relação ao dia da Hyper Books até às 16h foi um dia igual aos outros. Trabalho mais trabalho e mais trabalho porque os portugueses também deixam tudo para a última da hora. Cacá, não são só os brasileiros que têm este problema.
Quanto mais próximos no Natal maior o número de clientes por dia. E é o primeiro Natal que não vou poder festejar em condições porque dia 25 trabalho. É uma das regras da Hyper Books que obriga os novatos a trabalhar no Natal ou no Ano Novo. Ao menos prefiro ter o dia de Ano Novo de folga para poder comemorar a passagem de Ano Novo com a toda alegria mas sem consumo de bebidas alcoólicas.

Chi-coração,
José Maria

domingo, 15 de dezembro de 2013

TRECHOS E RESPOSTA

Diante de uma parede com frases, poemas e citações, Victor Eras admirava aquilo que lhe chamou atenção hoje:


Nem achada e nem não vista

nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.


É final da tarde de domingo. Não é mais amanhecer. É o prelúdio da noite. Que não tem significado real. É apenas uma convenção. Não tem nada de poético, não tem a menor emoção. Mas a história humana se encarregou de povoar de pretensas emoções, para consolar os aflitos e maltratar perdidos. O autor do poema intitulado Invenção de Orfeu fez isto bem. Mas sua contribuição para a jornada da minha vida foi esta oitava estrofe. Jorge de Lima - o autor do poema citado - embelezou com rima uma aventura que parece marítima.

Mas não há espaço para rima e beleza neste mundo por muito tempo.

É hora de Victor se informar. E, por menos esperançoso que seja, volta as costas à parede e dirige-se ao computador de mesa. Sem se voltar para a frase ou para a parede, nem mesmo para voltar ao leve delírio sobre poesia, rima e beleza.

Finalmente Caio havia respondido ao e-mail, mas não diretamente ao pedido de encontro. Fez-lhe perguntas sobre as ideias para o projeto, as quais Victor prontamente fez um texto:

Caro Caio, de posse meus parcos conhecimentos na área, resta-me o conhecimento humano e empreendedor. Literário e observador.
Ao contrário de alguns colegas gerentes e editores que correntemente me correspondo tão pronto esteja - espera-se que seja uma indireta suficiente -, coloco-me na posição oposta de não achar que são os livros que chamam o leitor. É a possibilidade de se encontrar neles, nas palavras e no enredo que apraz os indivíduos.
Logicamente quem não tem hábito da leitura precisa de capa, frases prontas e impactantes, layout chamativo e guturais doses de convencimento.
Não é por estes clientes que nossa rede se expande. Isto ocorre devido aos leitores vorazes que se apaixonam pelo atendimento, disposição das prateleiras, encontros de leituras, cafés com possibilidade de leitura de partes dos livros, música em fones, escolhidas, e que podem ir ao encontro das narrativas.
Minha sugestão, então, é que não haja espaço para estantes de um lado da abertura da loja. Apenas um café com uma parede com espaço para uma imagem enorme e um trecho que pode ser mudado por semana. Ou parte da parede tomada por uma tela de alta resolução com cenas e imagens que remetam aos livros. Uma chance de chamamento pelo café, pela estante de leitura disponível e pelos títulos não anunciados, contudo discretamente destacados em frases reflexivas, chocantes ou depressivas. Provavelmente abarcará a maioria dos leitores.
Enquanto nno outro lado da abertura da loja ficaria uma sala com luz direcionada em cada poltrona para "degustação" de livros em um ambiente com música instrumental clássica, quadros nas paredes e um espelho bidirecional, no qual quem está fora vê quem esta dentro, não com clareza suficiente, mas que os alvos, controlados pela luz branca do abajur direcional, sejam os livros.
Imagino que a contemplação de um lugar com leitores sentados confortavelmente e sem acesso ao mundo exterior de observadores transeuntes seja algo não tão corriqueiro e que pode fazer com que o sujeito adentre a Hyper Books!
Não estou ciente do espaço que tens para projetar, contudo não vejo necessidade de uma loja em formato de HB, como no caso da famosa loja do Porto, em Portugal. Se tiveres a possibilidade de um andar superior, como imagino que tenhas, os suportes das mesas, em geral transparentes, sugiro eu, seja no formato H e a próxima B. Assim quem esta no térreo da loja, ao olhar para cima, veja as mesas sequencialmente da esquerda pra direita formando o HB da empresa.

Agora tenho que fingir estar curioso quanto à aceitação da ideia.

O que achas?
Fico à disposição para discutirmos o assunto via Skype se o desejares.
Att.
Victor Eras.


É interessante para Victor admirar o e-mail de resposta. O menos objetivo que ele consegue, cauteloso, mas sem a arrogância de ter pesquisado por uma hora e trinta e dois minutos o assunto até achar a impressão de disposição espacial que poderia favorecer a entrada de clientes: chamar atenção para a ação de ler, não para o fim do empreendimento que é a venda. Não é o livro que chama a atenção das pessoas. É a história dos outros. A história de si. Momentos que se entrelaçam e parecem conformar uma única unidade. Como sugeriu ainda Jorge de Lima, antes do trecho citado em sua parede do escritório:

Nobre apenas de memórias,

vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.


O leitor quer afundar com o autor e emergir com ele. Nem sempre feliz. Mas geralmente vivo. E insuportavelmente apaixonado pela vida e pela beleza que aprendeu a ver no mundo, não na única beleza que importa. A beleza da sobrevivência.

sábado, 14 de dezembro de 2013

O peso dos nomes


Depois da crise de riso ao receber o e-mail de Cacá com o agendamento da reunião, Caio resolveu escrever ao gerente Vitor. Organizou algumas perguntas genéricas sobre o funcionamento das demais filiais para tomar como referência ao elaborar o projeto e resolveu percorrer as principais livrarias da capital gaúcha para analisar o que funcionava melhor e o que não gostaria de repetir no seu layout. 

Na incursão à melhor loja da cidade - não a maior - foi interpelado por uma mocinha simpática e cheia de piercings: "Procurando algum autor em especial?" Subitamente constrangido, Caio disparou que estava em busca da obra completa do seu xará. O ar inquisidor da garota não deixava outra alternativa além de prosseguir com o gracejo que servia apenas para disfarçar sua missão de agente infiltrado da concorrência. 
"Me chamo Caio" disse, pontuando a frase com um meio sorriso. Prontamente a menina disparou, com ares de vitória, uma ordem para que ele a seguisse: "Aqui estão todas as publicações do Caio Fernando e naquela outra prateleira tu escontras as obras sobre ele." Dito isso, despediu-se quase saltitante.

Caio agradeceu e ficou ali folheando uma edição revista de Morangos Mofados. Bem diferente da que leu, impressa em papel áspero e já amarelado num formato que mais lembrava uma revistinha de palavras cruzadas. O volume que já recebeu rabiscado em muitos trechos e acrescentou ainda outros sublinhados antes de decidir não devolver à sua colega de turma. Havia também uma coleção onde estavam algumas das cartas cuja leitura ele havia assistido, nos tempos em que rastreava toda a programação cultural gratuita da cidade - foi em um final de tarde tórrido, no gasômetro, algum estudante das cênicas leu algumas cartas de Caio para Hilda Hist, um evento alusivo ao seu aniversário de sua morte. Comprou a seleção de textos dividida em três volumes e agradeceu a presteza da garota dos piercings e olhos pintados à maneira Winehouse.

Na escada rolante, em direção ao estacionamento, pensou que o essencial na livraria dependia muito pouco da arquitetura e logo se perdeu em devaneios sobre a significância dos nomes. O que ele teria em  comum com um sujeito que sintetizou a visão de tanta gente que viveu as décadas de setenta e oitenta além do nome e de ter vivido algum tempo em Londres? 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Cacáfonia (só que não)

Caro Caio,

Conforme combinamos, confirmo comparecimento à capital colorada. Cada convidado a nossa congregação compartilhará conjecturas com convicção (creio), cabendo ao capacitado colega construir consenso com capricho. Cadernos e cartilhas conterão conhecimento complementar.

Comunicação com companheiros conectados a computadores comporá o conjunto de cabeças à caça da conclusão cabal. Conduzo comigo desta capital companheiro, a quem concedi conselho de que não carregue cachecóis, conhecendo o cruel calor da capital cujo caminho cursaremos. Clamo que concedas conselho congênere a companheiros com cujo contato não conto.

Completo comunicando que comemoraremos o concílio (caso conquistada convergência de conselhos) com celebração contida. Confio que compromissos concomitantes não comprometerão o comparecimento do colega. Candidato-me a comparecer com comidas carregadas de cravo e canela, condimentos que cultuo.

Cordialmente,
Cacá

------

Escrevo novamente pois esqueci de dizer que a reunião foi marcada pela diretoria para o dia 27.

Desculpe o lapso, estava preocupado com outras coisas.

Atenciosamente

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Devaneio musical em frente ao atribulado (e semi-natalino) departamento de RH

Nobody said it was easy/ It's such a shame for us to part/ Nobody said it was easy…

Ele divaga, lembrava de suas viagens de carro. Coldplay não era uma banda super brilhante na opinião dele, mas o que faz a música que não odiamos em um momento obter um significado em um dado momento, quando acidentalmente algo toca em uma situação inadequada. A música ganha significado. Não é mais uma música, é retrato de um momento. De dor geralmente.

A sala era discretamente inundada pela música de um player em formato de barra metálica que ficava no canto esquerdo de Victor Eras quando sentado em sua mesa, em frente à porta da gerência dos Recursos Humanos.

A música ainda flutuava levemente na sala, como se para o atormentar. Come back and haunt me… Mas Victor era forte. Sorria levemente lembrando de seu passado. Da escolha pelos livros e pela profissão, no lugar de viver uma vida modesta e pacata que provavelmente lhe proporcionaria um grande amor. Engraçado que ela possa acompanhar minhas memórias, mesmo depois de três anos.

O horário de trabalho estava próximo ao fim. Ele tinha decidido correr seus velhos e amigáveis 10km, ou próximo a isto no Parque Sara Kubitshek. Contudo ainda o intrigava, posterior à escrita dos relatórios de desempenho humano nos setores da Hyper Books, a ausência de retorno do e-mail do arquiteto Caio, indivíduo indicado para projetar a nova loja da livraria no shopping de Porto Alegre. Obviamente ele não colocou apenas o nome no título, contudo seu cargo na livraria multinacional. Isto pode ter contribuído para ele evitar a leitura. Provavelmente alguns sujeitos mais comunicativos tenham feito contato por telefone ou pessoalmente… Humanos, sempre prontos ao contato, e quando mais interessa não falam nada.

Ele é paciente. Não foi sempre, mas aprendeu a sê-lo. A observação lhe tem sido uma boa companheira. Junto com as reflexões e devaneios.

Hoje não haveria uísque, encontros ou planejamentos detalhados. Haveria corrida, reflexões e música. Bem como leitura.

Recordou-se imediatamente do aforismo XV de Bacon em Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza:

"Não há nenhuma solidez nas noções lógicas ou físicas. Substância, qualidade, ação, paixão, nem mesmo ser, são noções seguras. Muito menos ainda as de pesado, leve, denso, raro, úmido, seco, geração, corrupção, atração, repulsão, elemento, matéria, forma e outras do gênero. Todas são fantásticas e mal definidas."

Ele voltaria da corrida com novos significados para os eventos da semana que se finaliza. Momento de pesar os ganhos e perdas. De organizar os recursos (humanos) para as festas natalinas que tanto agradam clientes e funcionários. Que lhe parecem pessoalmente lamuriosas e falsas, mas que são de um retorno enorme à multinacional. A música é clara: não posso mudar o mundo todo, mas posso adequar uma pequena parte dele para atingir fins específicos, os meus fins.

Ele já não pensava em Bacon, em Novum Organum, e, menos ainda, em Coldplay com a letra significativa, mas repetitiva de The Scientist. É a música da sobrevivência.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Desenhar e fugir


O escritório anda silencioso, boa parte dos estagiários está mais concentrada no final do semestre em seus cursos do que nos projetos que por essa época ou já foram concluídos ou estão em stand by. Caio rabisca layouts, consulta na memória as livrarias que mais lhe agradaram, tenta imaginar uma que satisfizesse leitores com diferentes perfis e que se afaste do clima que encontrou na sede da rede em Londres. Odiou aquele lugar. Como contraponto, lembrou del Ateneo, em Buenos Ayres, mas aquele era um espaço irreproduzível e totalmente na contramão da proposta de uma megastore multinacional.

Sobre a grande mesa com tampo de vidro fosco estão espalhados seus lápis de grafite macio, as folhas tamanho A3 de gramatura 224g/cm2 e os livros com as obras preferidas de Santiago Calatrava e um volume antigo sobre escadarias, de Pilar Chueca – pensava em utilizar alguma ideia impactante para unir os dois pavimentos do espaço amplo de pé direito duplo.  Queria ter um esboço para apresentar ao gerente de logística quando se encontrassem, mais para ter assunto do que pela expectativa de uma aprovação ou análise crítica. Mas o que precisava mesmo era ocupar-se com qualquer som ou vista vindos de fora da própria cabeça. Desenhar ainda era uma boa alternativa de anestesiar sensações incômodas.
Concluiu quatro esboços de escadaria, uma, por pura fanfarronice, usava as iniciais da rede como guarda corpo. Talvez fosse melhor não mostrar aquele desenho. E se o gerente gostasse da ideia e insistisse na sua aplicação? Melhor descartar.
Os dedos sujos de grafite deixaram marcas bonitas na porcelana branca da xícara. A bonita mistura de branco louça e carvão-metálico seria uma boa escolha, não estivesse obrigado a usar os berrantes amarelo e vermelho. Seria necessário investir em madeira e luzes suaves para abrandar a gritaria das cores, mas nesse momento Caio se concentra nos rumores da rua que sobem até sua janela. Não são provenientes do trânsito ou da movimentação comercial dos arredores, mas de um bate boca de namorados. Isso ele vê através da vidraça porque tem pudor de escancarar o postigo e interrompê-los. O casal é jovem e não se importa com a senhora idosa que passa por eles com ar interrogativo, parecendo querer avisá-los do tempo que perdem com besteiras.
De volta à mesa de trabalho na sala predominantemente branca, Caio remexe os e-mails recentes e percebe ter recebido também o contato de um gerente de RH, parece que de Brasília, mas sente-se pouco estimulado a ligar. Protelar ainda é um hábito forte.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Conheça quem faz a Hyper Books

Página Inicial I Conheça outros funcionários I Localize uma loja I Trabalhe Conosco

Funcionário: Carlos Alberto Moreira Leal (Cacá)
Função: Gerente de Logística
Local: Escritório da rede (São Paulo/SP)

Olá, amigos. Eu sou o Carlos Alberto, e trabalho como gerente de logística da Hyper Books no Brasil. Comecei na empresa como vendedor na loja dos Jardins, em São Paulo, há mais de dez anos. Era para ser só um emprego temporário, uma maneira de pagar as contas enquanto estudava Direito. Me apaixonei pelo ambiente da livraria, pelo trabalho, pela equipe (até demais, conheci minha esposa aqui). Mudei de curso na faculdade, fui sendo promovido, e hoje tenho um cargo que adoro, e que desempenho com muito prazer.

Mas o que nós fazemos no Departamente do Logística? Como vocês devem saber, a Hyper Books tem muitas lojas espalhadas pelo Brasil. Todas essas lojas precisam receber os lançamentos em termos de livros, CDs, blu-rays, revistas, além de reabastecer os estoques quando algum produto está acabando. Nós recebemos os pedidos de cada loja, organizamos a distribuição, o transporte. Nosso objetivo é garantir que cada loja possa oferecer ao cliente as opções que ele procura, sendo que os produtos devem chegar sempre em ótimas condições, em prazo razoável e com o menor custo possível, para que possamos oferecer os melhores preços a vocês, nossos clientes.


Todos na nossa equipe aqui no Departamento de Logística da Hyper Books Brasil temos muito orgulho do nosso papel em tornar cada visita a nossas lojas uma experiência recompensadora.